Final de ano nas praias: as “férias” das aves migratórias, pequenas grandes viajantes
- César Cestari
- 20 de ago. de 2018
- 3 min de leitura
No fim de ano, muitas famílias aproveitam o período de férias estendidas para se reunirem em regiões litorâneas do Brasil. Geralmente, os muitos quilômetros de viagem são recompensados por mesas fartas e um bom bate-papo que recarregam as nossas energias para o novo ano que se aproxima. Afinal, a vida é feita de ciclos necessários à nossa sobrevivência. Assim, as nossas praias ficam repletas de pessoas que as utilizam como locais de lazer para caminhadas, esportes ou simplesmente um descanso sob um clima tropical favorável e convidativo.
Ao aproveitar um desses benefícios de nossas praias, você alguma vez já se perguntou quem são aquelas pequenas aves que possuem perninhas “ligeiras” e que correm rapidamente, acompanhando o ritmo das ondas e fugindo das pessoas? Não? Pois é, estas aves são popularmente chamadas de batuíras e maçaricos. Elas constituem várias espécies que voam anualmente milhares de quilômetros para “recarregarem suas energias” e aproveitarem da mesma maneira que nós os benefícios do clima mais ameno, locais para descanso e comida diversa (formada por insetos, pequenos crustáceos, moluscos e larvas) presentes nas regiões tropicais. No entanto, apesar de compartilharmos as praias, infelizmente a vida das aves não é tão fácil.
Talvez, grande parte das pessoas que freqüentam as praias enfrentam algumas horas de viagem de suas casas ao destino final. Vamos estimar para os que moram mais longe um valor máximo de 600 quilômetros, percorridos confortavelmente em um veículo. Para os que não estão acostumados, a simples concentração no tráfego de uma estrada, apesar do pouco gasto de energia por atividade física, cansa, não é mesmo? Comparativamente, vamos analisar as vidas das batuíras e dos maçaricos. Algumas destas aves iniciam suas viagens em meados de novembro e voam até 13.000 km (máximo de 4.500 km sem paradas) vindas de regiões do Alasca, Canadá e norte dos Estados Unidos, onde já se reproduziram. O esforço reprodutivo anterior à migração implica que gastaram energia na busca de território e parceiros adequados, construção de ninhos, incubação dos ovos, cuidados e alimentação de seus filhotes. Adicionalmente, durante o trajeto de migração, estas aves necessitam enfrentar dificuldades climáticas, tais como: o frio, a chuva, ventos e tempestades. Durante as paradas de poucos dias à procura de bons locais para repouso e alimentação, estas aves enfrentam predadores, alterações e desaparecimento dos hábitats nativos (aos quais estavam habituadas por milhares de anos) provocados pela urbanização. Soma-se a isso a volta e concluímos que todo esse risco e gasto energético é duplo no período de um ano, pois em meados de abril estas aves iniciam o retorno para se reproduzirem novamente em suas terras natais. Impressionados? Bastante coisa, não? Espere mais um pouquinho, pois tem mais...
Chegando em seus locais de destino, a odisséia do alto gasto energético não termina, pois estas aves têm que enfrentar principalmente a competitividade direta e desvantajosa com os seres humanos. Muitas das praias, cheias de pessoas e perturbações em vários graus (turistas se locomovendo a pé ou em veículos, cães soltos nas praias, etc) não permitem que estas aves descansem e se alimentem corretamente. Ao contrário, suas reservas de energia são diminuídas frequentemente pelas tentativas de fugas a tais perturbações.
E quais as soluções para isso? Muitas, e que exigem somente um pouquinho de nosso esforço energético! Inicialmente é necessário termos conhecimento para identificar os seres vivos que compartilham os mesmos hábitats que nós. Muitos livros bons de identificação de aves foram lançados ultimamente. Além disso, sites on-line possuem arquivos de imagens espetaculares. Basta encontrar alguma ave na praia, e tentar identificá-la. Esse é o primeiro passo: conhecer para aprender e tomar medidas conservacionistas! A outra parte de uma solução eficiente que favorece a convivência de aves migratórias e seres humanos é evitar uma aproximação relativamente curta (menos de 20 metros) com as aves migratórias em praias. No âmbito governamental, temos também que exigir de nossos representantes políticos o estabelecimento de segmentos de áreas fechadas ao público e reservadas somente para as aves, afinal, nós temos espaço para isso ao longo de nosso imenso litoral.
Depois de todo esse esforço, acredito que as aves migratórias merecem recarregarem suas energias para recomeçarem o ciclo de suas vidas, tais como todos nós, vocês não acham?

Para saber mais:
Cestari, C. 2011. Foraging behavior of Hudsonian Godwit Limosa haemastica (Charadriiformes, Scolopacidae) in human-disturbed and undisturbed occasions in the Atlantic coast of Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia 19: 535-538.
Cestari, C. 2014. Coexistence between Nearctic-Neotropical migratory shorebirds and humans on urban beaches of the Southern Hemisphere: a current conservation challenge in developing countries. Urban Ecosystems (on-line first - DOI 10.1007/s11252-014- 0399).
Sigrist, T. 2013. Avifauna brasiliera. Avisbrasilis, Vinhedo.
Van Perlo, B., 2009. A field guide to the birds of Brazil. Oxford Press, New York.
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